domingo, dezembro 13, 2009

Os desencontros de si e os encontros


Adalberto, acorda, abre as janelas e recebe aquele abafado ar da primavera que vai se despedindo e dando espaço ao verão, recua, olha-se no espelho e percebe que os dias têm lhe passado mais ligeiro que o tempo real. Lembrou-se inclusive das aulas de física e relatividade do professor Cretídio.

Foi até a cozinha, preparou o café na cafeteira e, enquanto essa lhe fazia o serviço único de passar o café, foi até a rua em busca do jornal. Ao abrir a porta, percebeu que havia três jornais lançados à sua porta, intactos. Deduziu faz três dias que não saio de casa... Recolheu-os meio sem graça, entrou e foi verificar o café. Descobriu mais, havia preparado a cafeteira única e exclusivamente para passar a água pura! Respirou fundo. Um, dois e três. Desligou a cafeteira, emborcou a água quente no compartimento, colocou o jarro, o coador, o pó, desta vez o pó! Enquanto isso, abriu a geladeira, retirou seus cacetins envelhecidos, colocou dois dos três na grelha para se renovarem, serviu-se de café, comeu dos pães, apenas um e foi abrir o jornal do dia. Abriu-o, folheou-o e buscou os classificados de emprego. Antes de abrir os classificados, olhou o relógio, eram onze horas, abriu e enfrentou a busca.

Ofertas de emprego para múltiplas funções. Nada para professores de Língua Portuguesa e suas literaturas. Fechou o jornal. Coçou-se, respirou fundo. Olhou as horas, era quase meio-dia... Os dias passavam ligeiramente rápidos para ele; sentia-se envelhecido, sem forças, opaco e sem dinheiro. Os dias passavam lentamente para que chegasse o dia D, o dia de novamente assinar um contrato profissional. Era para talvez estar mais ou menos acostumado, a cada um ano letivo trabalhando tinha junto três, quatro meses sem trabalho, mas desta vez já era demais! Quase nove meses sem trabalho! Um tempo suficiente para um parto.

Decidiu sair aquele dia. Tomou um banho, vestiu-se esportivamente e foi à fruteira do Seu Zé. Escolheu os tomates, o tempero verde, as cebolas, a abóbora cabutiá, as batatas doces e inglesas; ao dirigir-se para pagar, Seu Zé lhe pergunta com tom de deboche se já estava empregado, pois estava sumido; com humilde tom, Adalberto lhe respondeu que já estava quase, estava decidindo umas atitudes. Qual atitudes não foram reveladas ao Seu Zé, pois nem mesmo Adalberto sabia.

Em casa, Adalberto pusera-se a pensar para encontrar uma saída. Não agüentava mais os olhares dos vizinhos, os scraps dos amigos perguntando como estava, se já havia arrumado um emprego, os familiares lhe telefonando... Precisava dar fim a tudo isto e a pôr movimento e dinheiro na sua vida. Situações diversas passaram pela sua mente...

Podia telefonar para algum rico, arriscar dizer que sequestrara sua mulher e pedir uma grana boa o suficiente, mas boa mesmo, o bastante para poder quem sabe... Não, não adiantava, nem um seqüestro falso era capaz de bolar, afinal, não precisava de dinheiro apenas, precisava mesmo era de movimento, isso fora a sua motivação na hora de escolher a carreira, não o dinheiro.

Folheou o jornal. Quem sabe uma idéia, uma proposta. Olhando novamente os anúncios, percebeu os classificados de Procura-se homem que isso e aquilo outro. Um requisito que quase sempre estava presente era saber e gostar de dançar. Jamais imaginara outrora em responder a um anúncio destes! Não era homem de encontrar namorada via jornal. Mas quem sabe um namoro de aluguel? Afinal, namorada não queria, mas dinheiro e movimento sim. Ainda era jovem o bastante, tinha boa aparência, falava também inglês, espanhol e francês, entendia de cinema, literatura, apreciava o teatro, sabia dançar muito bem e gostava de comidas requintadas... As idéias de Adalberto começavam a ganhar vida, começavam a ganhar brilho... E mesmo assim, a maior demanda de trabalho seriam aos finais de semana, quando conseguisse aulas, isso poderia se tornar apenas um bico, e mais, diversão paga.

Olhara seu guardarroupas, tinha ainda algumas roupas boas, aquelas usadas nas formaturas de alunos, tinha apenas um par de sapatos bons, somente estes não lhe bastariam, pois eram apenas bons... Se quer conhecer a origem do homem, olhe para os seus sapatos. Eis o ditado. Adalberto decidiu ligar para o jornal, gastar onze reais e anunciar-se como namorado de aluguel no jornal de domingo.

Era sexta-feira, Adalberto acordou ansioso. Não esperava pela hora de receber a primeira proposta. Pedira cinqüenta reais pela hora. Era hora do almoço e já havia se arrependido, achara tudo uma loucura, pensara nas amigas de sua mãe, de sua avó lhe contratando... Mas agora a sorte ou o azar estavam lançados... Nem mesmo se lembrara de especificar no anúncio que só sairia com mulheres apenas, imaginara as Saritas que lhe telefonariam... Assim que tomara a decisão de ligar ao centro de atendimento ao cliente para cancelar o anúncio, notara que seu telefone, por falta de pagamento, só estava a receber ligações. E agora? Adalberto sem saber o que fazer, percebeu claramente que sim, o dinheiro sim estava terminando, nem para o telefone tivera dinheiro. Teria sim de continuar com a idéia do namoro de aluguel. Passaria então a rezar para todos os santos que Saritas não, definitivamente não iriam lhe aparecer.

Nem bem o jornal de domingo chegou às bancas no sábado, o telefone de Adalberto tocou. Hesitara entre a ansiedade e o temor. Não havia sequer treinado como atenderia ao telefone. No quinto toque, atendeu com um rouco sim. Era sim o seu maior temor Roberta, mulher de trinta procura um homem distinto para acompanhá-la às compras, almoçar em restaurante japonês e terminar o dia com um cineminha. Prometia pagar o dobro por hora, cenzinho por hora, com toda a programação, Adalberto receberia uns seiscentos reais apenas no domingo. Sim. E como, podemos nos encontrar? Como lhe faço o pagamento?

Ondas do Mar da Vida



Chovia e não chovia, chuviscava durante a inerte tarde de outono. Antunes estava sentado frente à janela de sua quase sempre movimentada sala gélida tomando seu café e saboreando seu fumo enquanto se lembrava da longínqua quase esquecida vida à beira mar que vivera em um sonho que realizara e que dele desistira pelos pesados pesadelos que tivera.

O fechado mar azul, a estreita e longa faixa de areia encascalhada, as pedreiras, a bica d’água doce que escorria, os encantados que a habitavam, o céu quase sempre límpido mas nem sempre sereno, o ar, às vezes um tanto esfumaçado, as ruas calmas e nem sempre serenas, os pássaros cantores... O cheiro da vida era um tanto defumado, um tanto mareado, sereno e tenso. Passos leves e constantes que a lugar algum iam, mas que a alma impressionavam em saltos.

Sentado à beira do mar, dentro de um ancorado barquinho, Antunes refletia junto às tensas e baixas ondas de seu mar. Olhava as ondas como se olhasse a si próprio. Olhava a si próprio por suas mãos ainda jovens, mas cansadas de lutar contra o que nem se sabia o quê. Ondas do mar avançavam, quase que brincando com Antunes de entra e não entra barco adentro, de leva não leva o pequeno barco, fazia Antunes perceber que sua vida estava por se transformar. Uma quase transparência em suas mãos fizera-lhe ver sua vida indo e vindo, saltando por dentro das ondas movidas pelo vento nem iam nem vinham, nem levantavam o barco e o guiavam nem o deixavam pleno.

Antunes olhava o horizonte. Via do outro lado do mar que se revoltara, um clarão que quase o cegara. Antunes, por um instante, pensara que sonhava, mas se sentia lúcido mais que nunca. O clarão vindo do céu causara uma forte onda imensa que avançava ligeiramente em sua direção, a forte onda removera o ancorado barquinho e o levara por seu estreito e longo mar. Antunes sentia e não sentia temores, esperanças e calmas.

A noite caira, Antunes enxergava sua vida de sonho. Paz, sossego, frutas e legumes sempre frescos, estradas perfumadas da mata que as cercava, pássaros sempre voando e seus cantos sonorizando sua vida. Num estalo, o ambiente de paz se transformara em um ambiente similar a de uma guerra, a mata que cercava as estradas fora substituída por campos secos e sem vida, o perfume fora substituído por carnificínero odor. Seus pássaros se transformaram em urubus que voavam sobre a terra seca em busca de carniça.

Antunes sentira seu peito se asfixiar, suas pernas endurecer e sua mente abrir. Surgira a sua frente seus amigos de fé, seus amigos quase irmãos, quase pais e mães. Todos os dois; eram dois, eram todos e muitos para si; em campanha para lhe fechar a vida, lhe sugar mais do que já o havia. Ele vira-se amigo dos dois inimigos. Percebera seus dons, suas propriedades, sua vitalidade toda sugada, seu corpo à beira do mar entre as pedras lançado e corroído pelos urubus. Olhou à volta e tudo se perdera. A pequena população se transformara em pó, os amigos inimigos dos inimigos estavam todos em campanha para se destruírem. Sobre o céu de antes, quase límpido, agora pairava uma vermelhidão tenebrosa.

Uma nova onda forte e veloz avançou sobre Antunes. Num estalo, Antunes perdera toda aquela terrível visão, e voltara a enxergar o mar em revolta à sua frente, o pequeno barco em mareado movimento, mas agora um vento frio cortava-lhe a face. Por instantes, Antunes desacreditava do que vivera. Levantara-se, e partira para sua casa. Uma tempestade chegara à beira mar. Muitos raios caiam a sua frente.

Tocara o telefone, era sua amiga Samira. Estava chegando naquele momento em sua casa, vinha de sua viagem ao Peru, intencionava passar uma semana com Antunes. Em meia hora chegaria a sua casa. Antunes preparara o chá que Samira adorava, frutas e chá preto, para esperá-la.

Samira chegara, trocara suas roupas molhadas e, enquanto saboreavam o chá, Samira contou a Antunes um sonho que teve no avião quando voltava para o Brasil.

Antunes estava acompanhado de duas pessoas, em lugar de seus rostos havia um nada escuro, suas mãos eram garras e seus suores eram sangue. Antunes era envolto num vento escuro que o impedia de enxergar os arredores, enxergava apenas a vida daquelas criaturas. As criaturas mantinham-se vivas com a energia de Antunes... Samira o enxergou com sua vida terminando, sua energia vital se extinguindo, sua casa em ruínas...

Antunes ouvira o relato de sua amiga sentindo seu peito asfixiar-se como outrora. Samira era uma amiga de muitos anos de Antunes, ela sempre lhe trazia revelações, fosse por suas vidências, por suas cartas ou por sua pura chegada repentina em sua casa. À ela foi relatada sua experiência da beira mar.

Samira, motivada pelas revelações, partira às confirmações concretas, abrira suas cartas e mostrara a Antunes por meio das imagens que sua vida estava sofrendo naquele momento uma espécie de resgate, um resgate que ele invocara na noite da Rainha do Mar, quando os pescadores rendiam suas homenagens e partilhavam o peixe com os moradores presentes. Antunes, mesmo quase sempre crédulo na amiga, rendeu-se a ela neste momento. Da noite da Rainha dos Mares, nem seus amigos inimigos sabiam.

Samira que nunca tinha tido um paradeiro certo, desta vez o tinha. Estava indo para o sul. Decidira que era hora de empreender-se em algo mais rentável que estavam além de seus dons. Antunes era necessário nisso. Esse era o real motivo de sua visita, convidá-lo a ir viver no sul e para gerenciar a loja que estava abrindo.

Antunes estava estático. Havia 8 dias da festa da Rainha dos Mares. Não sabia que atitude tomar. Chorara feito criança que desperta de um pesadelo.

O importante é realizar os sonhos seja como e onde for. Mais importante que isso é preservar as raízes e os amigos do peito. Tão importante quanto necessário é ter fé nesses sonhos, pois se pesadelo se tornar, como o mar que tudo leva e tudo devolve transformado, a fé vai e o resgate vem.


A vingança

Kadu, Carlos Eduardo, é o bassê do Seu Altair. O Seu Altair já bem senhor, na idade em que nada mais importa a não ser o seu bassê, passa seus dias adulando o seu roliço cão. Kadu, que de roliço já passou há muito à obeso, esfrega-se dia e noite em Seu Altair; acorda quando o Seu Altair acorda, dorme quando Seu Altair dorme, rodeia as pernas, não somente de Seu Altair, mas também as das visitas quando se sentam à mesa para as refeições a fim de ganhar lascas de carne e outros quitutes preparados por Dona Margarida.

Dona Margarida, senhora de Seu Altair, passa seus dias limpando os excrementos do Kadu espalhados pela casa, lavando as capas dos sofás onde além de Kadu insistir em se recostar, Kadu faz xixis; cozinhando quitutes que são apreciados por todos, inclusive por Kadu, e, também, reclamando para o marido do obeso e nojento cachorro.

Certa feita, Seu Altair e Dona Margarida resolvem apreciar o tempo quente do Rio de Janeiro, já que no Rio Grande do Sul, o frio lhes tem provocado dentre outras coisas, uma profunda irritação. Seu Altair deparou-se com um grande problema.

- Como vamos levar o Kadu?

- O Kadu não vai! Diz Dona Margarida, já aflita só de pensar o cachorro no colo de Seu Altair dentro do Avião querendo beliscar os amendoins trazidos pelas aeromoças.

-Como? E quem vai cuidar do Kaduzinho? Quem dará a ele os seus remédios nos horários certinhos? Sabe que ele pode ter um ataque epilético se não tomar os seus três remedinhos diários? Tu sabe disso? Tu sabe também que ele só dorme se eu durmo? Se ele fica com o horário desregulado, ele tem pesadelos? Tu sabe disso, Margarida?

Por fim, o casal de velhinhos teve como salvação para mais uma briga por causa do Kadu, o seu filho mais velho, Hilton, o doutor da família, o advogado. Já que o Hiltinho mora aqui mesmo, não irá se importar de cuidar do Kadu por apenas sete dias...

Partiram então Seu Altair e Dona Margarida para sete dias no Rio de Janeiro. Hilton que os levou ao aeroporto recebeu por duas horas e meia recomendações sobre Kadu. Não vai dormir tarde porque o Kadu tem horário, não vai esquecer dos remédios, não vai isso ou aquilo que o Kadu tem um ataque, que o Kadu tem pesadelo...

Quando o avião partiu, Hilton começou a conspirar contra Kadu, finalmente chegou a hora do embate com o concorrente. Afinal, tudo pro Kadu, ninguém, nem ele mesmo, nem seus irmãos, nem suas filhas e sobrinhos recebiam tanto de Seu Altair quanto Kadu, isso na mesma proporção das enraivações de Dona Margarida, ninguém a enraivava mais do que o roliço e nojento Kadu.

Até o segundo dia, Hiltinho, estava tolerando o cão... Esforçou-se em não alimentar a sua psicopatia, ministrou os três remédios diários de Kadu, que estavam arrumadinhos na caixinha com divisórias diárias, limpou trezentas e trinta e nove vezes os excrementos de Kadu espalhados pela casa, alimentou o cão com a ração especial; só a ração semanal de Kadu era mais cara que as carnes consumidas pelos da casa; além, é óbvio, de trabalhar no escritório atendendo aos malucos que buscavam o advogado Doutor Hilton para resolverem seus problemas mais complexos e, às vezes, ignóbeis; de pegar por duas vezes o congestionamento porto-alegrense.

À noite, já passavam das onze, Seu Altair resolveu ligar e saber como iam as coisas.

-Hiltinho, como está o Kadu?

-Ele está bem, pai. E como os senhores estão aí?

-O Kadu tem comido?

-Tem, pai. E como os senhores estão aí?

-Tu tem dado os remédios dele nos horários?

-Tenho, pai. E como os senhores estão aí?

-Olha só, são três: o vermelho às 8h, o branco ao meio-dia e o azul às 22h! É cada um em um horário.

-Sim. E como os senhores estão aí?

-Tu tem dormido cedo? O Kadu só dorme quando não tem mais ninguém acordado na casa!

-Sim.

-Veja bem, não vai levar os amigos pra aí que o Kadu vai estranhar. É muita mudança na rotina dele! Ele pode ter um ataque mesmo com os remédios!

-Sim.

-Vai dormir, tu já passou muito da hora do Kadu dormir, ele vai acabar tendo pesadelo!

-Sim

-...

Hiltinho estava vermelho e bufando de raiva quando Seu Altair desligou o telefone. Olhou para Kadu e, neste instante, o cão lhe põe a língua para fora e sobe no sofá de pano azul, como se o lembrasse do bendito remédio azul, o remédio para dormir, Hiltinho quase num ataque, atira-lhe o cinzeiro, mas por sorte, não pega em Kadu. Hiltinho sai, respira o ar puro e volta. Olha os remédios de Kadu, respira e ministra o remédio azul; o calmante quem precisa agora é ele próprio, não Kadu.

No quinto dia, pela noite, chegam as visitas que seu pai recomendou tanto que não viessem. Um casal de amigos barulhentos chega de outra cidade para uma visita especial, uma visita ao cemitério para levar algo ao tio. Essa visita promete pernoitar. Hiltinho, nesta altura, prefere os amigos perto para ajudar nos seus planos com Kadu. Afinal, depois de limpar quatrocentas vezes os excrementos de Kadu, pensou nos sofrimentos de sua idosa mãe Margarida...

Feita a visita ao cemitério, os amigos voltam para a casa de Hiltinho e, para acentuar as emoções de Kadu, trouxeram o tio. Kadu parecia começar a planejar um ataque, pois parecia, por seus atos, pressentir que esta noite prometia e que talvez não dormiria, pois agora eram quatro os que não o deixariam dormir.

Conversavam com muita emoção, enquanto Kadu parecendo ter planejado um ataque para espantar as visitar e dar uma lição em Hiltinho, passou a subir à mesa e saltar à pia e saltar ao chão consecutivamente, travessura que nunca havia feito antes. Hiltinho, vermelho de raiva, não sabia o que fazer, quando resolveu lançar Kadu á rua para ver se ele o deixava em paz, já sem importar-se com o que poderia acontecer com o Kaduzinho e nem com ele próprio quando Seu Altair voltasse e, porventura, Kadu tivesse se dado mal. Kadu, ao saltar da mesa à pia, resbalou, caiu batendo com a cabeça na quina da porta do forno que estava aberta por esquecimento do tio que estava tentando assar um galo. Sua cabeça começou a sangrar, e Kadu foi rapidamente perdendo os sentidos e os batimentos cardíacos.

Hiltinho paralisou frente ao cadáver. O tio só exclamou Ave Maria, o homem nem se mexia e a mulher ria.

-E agora? Seu Altair vai ter um ataque! O que que eu vou fazer?

Passaram os quatro, à noite toda, pensando o que fazer. Primeiro tinham que se livrar do corpo. O tio aconselhava fazer o empalhamento do Kadu e dizer ao seu Altair que o cachorro se assustou e endureceu. O homem não dizia nada. A mulher ria e chorava, era melhor enterrar o pobre no cemitério, Hiltinho corria de um lado pro outro e olhava o relógio, daqui à pouco irá clarear e Seu Altair irá telefonar e o que dizer? E quando chegarem em casa? Pior. O cachorro ressuscitar não dá, ou será que daria, perguntou Hiltinho ao tio. Ave Maria, dizia o tio.

Hiltinho de nervoso ou de ataque mesmo caiu sentado no sofá azul em sono profundo. A mulher ria e chorava e também fumava, o tio fumava, bebia e dizia Ave Maria. Quinze minutos depois, Hiltinho levantou com uma grande idéia, vamos fotografar o defunto! E surpreendentemente, desistiu, pois Seu Altair culparia as visitas que ele recomendou que não viessem... Seria pior! Hiltinho desanimou como uma criança. Pela primeira vez, não sabia resolver um problema. Nem o tio poderia aconselhar...

Enquanto decidiam o que fazer com o corpo roliço e obeso do falecido Kadu, clareou o dia. Às 8 horas da manhã, Hiltinho esperava a ligação de Seu Altair para averiguar a medicação de Kadu, eram 8h30 e nada do telefone tocar. Agora que ninguém sairia de casa, pois a qualquer momento o telefone tocaria. Perto da 9 horas, ouviram um barulhão, Hiltinho começou a suar frio, pois reconhecera o barulho das chaves de Seu Altair... A porta se abriu, Seu Altair gritou por Kadu e nada... Ao ver as visitas em sua casa, Seu Altair correu à cozinha e enxergou Kadu estirado e ensanguentado perto do fogão, gritou:

-Kadu! Kadu! Kaduuuu!

Quando estava quase se ajoelhando junto a Kaduzinho, o relógio do cuco anunciou 9 horas da manhã, e Kadu abriu os olhos e pulou nos braços de Seu Altair.

Kadu parecia ressuscitar. Era apenas um desmaio por conta da forte batida, o sangue era proveniente da arrebentação de um pequeno vaso sanguíneo sem muita importância, a não percepção dos batimentos cardíacos era porque tinham enfraquecido com o ministro do remédio azul.

-Nem pra morrer o cachorro roliço e nojento se presta! Exclamou Dona Margarida ao ver a poça de sangue na sua cozinha.

-Hilton! Exclamou seu Altair.

Hilton já estava bem longe nessas alturas com suas visitas.

O Grande Dia



Cidade do interior, verão, 36°C. Stênio acorda, puxa o relógio de passeio de sua esposa e verifica são seis horas ainda, durmo mais um pouco, às sete me levanto. Stênio, pela sua ansiedade, acorda novamente sem despertador são sete! Arruma-se e vai pelas ruas da cidadezinha até a universidade, onde participará de um concurso para professor efetivo.

Que sol forte, pensa, são oito e poucas, não deveria ainda estar assim. Preciso ver as horas... Nenhum comércio está aberto, não passa por mim nenhuma pessoa com relógio... Chega à universidade, mas não há ninguém na portaria para informá-lo das horas e do possível local onde ele encontraria as pessoas.

Onde terá ido o pessoal? A sala é essa, conforme o edital... Stênio anda por todo o prédio, sente-se estranho, quer ir embora, sente-se como que dentro de um conto fantástico, onde tudo pode acontecer e esse tudo só pode ser o do pior possível. A saída? Me perdi, agora se deu a confusão... Acho que vim daquele corredor... Stênio dobra o corredor à sua direita, quer achar a saída e ir embora. Há algo que o diz Se manda, rapaz! Enquanto hesita em apertar o botão do elevador, uma porta à suas costas se abre.

-Ohôhô, grande Stênio, você está atrasado.... Vamos ver o que podemos fazer, vamos à sala da prova, os pontos para as provas dissertativa e expositiva já foram sorteados. Falou um dos professores-avaliadores que, por sinal, conhecia Stênio de longas datas.

Meu Deus, e agora? Não posso mais fugir! E a banca? São todos conhecidos meus! Stênio não sentia mais nem a própria alma. Só podia pensar em que estava fazendo ali e a necessidade de fugir. Na verdade, Stênio já não sabia mais porque queria fugir, apenas queria.

-O nosso amigo chegou atrasado, mas como ainda não divulgamos os pontos, se ninguém da turma se opuser, ele poderá participar.

Vários não, não, por mim, ele pode participar foram murmurados e Stênio não pôde recusar a participação.

Todos estão sentados em seus lugares, à espera da divulgação dos pontos. Os participantes têm direito à consulta às suas anotações referente ao assunto pelos primeiros trinta minutos. Por um momento, Stênio achou-se aliviado, mas suas mãos suavam frio como nunca antes, e o seu coração estava acelerado.

Meu Deus, dos dez prováveis pontos dessa prova, estudei nove. Os pontos foram finalmente divulgados: Análise do xxxxx; prova expositiva: Análise do xxxxx.

Stênio perde a consciência por alguns segundos, pensa em desmaiar, olha para o quadro várias vezes, tenta pensar, sua mente se confunde. Stênio pega os papéis que possui, tenta fingir lê-los, não sabe o que fazer. Meu Deus, por que age assim comigo? A probabilidade de cair o mesmo tema nos dois sorteios é ínfima, o único que não pude estudar!

Stênio sente uma força sobre a sua cabeça e um filme vem à sua mente: a falta do livro que emprestara há um ano e meio ao amigo de sua esposa que, por ventura ou castigo, era um dos participantes daquele concurso; o quebrar do carro no caminho da viagem, o decorrente atraso da viagem em doze horas; a dificuldade em se instalar; o descarregar da bateria do celular (essa durava 15 dias, logo ontem descarregou); o relógio que sua esposa usava ser o de passeio, logo estava atrasado em uma hora (o horário de verão já havia começado há três dias); o decorrente atraso de uma hora na chegada à universidade; a sensação de terror vivida até ali... Deus o avisara de várias formas que não adiantaria de nada insistir naquilo. Realmente, a minha vida está predestina ao capino do sítio improdutivo que herdei e a tolerância com os porres da minha mulher!

O aspirante a professor guardou suas coisas, levantou-se e dirigiu-se à mesa.

-Aqui está!

-Como assim, você vai desistir?

-Vou, porque pensando bem... Stênio soltou um sorriso amarelo e continuou tenho uma bolsa de pós-doc na Argentina já aprovada, e eu queria fazer essa prova por experiência mesmo, mas acho melhor eu ir andando.

Stênio saiu só aos ossos. Não conseguia pensar. Não conseguia enxergar ou ouvir. Saiu da universidade e chegou ao hotel sem saber como, pareceu mágica. Pegou suas coisas, deixou sua esposa dormindo embriagada no hotel, pagou a conta e se mandou para nunca mais voltar à vida que levara até ali.

Disse um amigo meu que a esposa de Stênio se suicidou ao ver que o marido fugira, e que o próprio se tornou hippie e vive hoje de artesanato e erva na Bahia em alguma praia e, de vez em quando, vai aos Xangôs em busca de salvação.

domingo, setembro 20, 2009

O Mundo é de Luz!


As noites podem ter sido mais escuras
Mas os dias têm sido mais claros e vivos!

Se me dás a maldade,
Reverto tudo em bondade.
Se me desejas a derrocada,
Ainda mais avanço na Escada.
E mais próximo da vitória fico,
Mas mais próximo da execução ficas.

A palavra mais antiga do mundo prega que, se o mundo é redondo, toda pedra que lançares todo o mundo percorrerá, mas a ti voltará com a força mesma que a lançara. A Física prova que todo elemento lançado contra uma parede, a ti voltas com força igual.


Se lançares flores ao mundo, flores a ti voltará.
Se lançares justiça ao mundo, justiça a ti voltará.
Se lançares perfumes ao mundo, perfumes a ti voltará.
Se lançares compaixão ao mundo, compaixão a ti voltará.
Mas se lançares maldades ao mundo, maldades a ti voltará.
Pela Lei, tudo que vai volta, tudo que o mar leva, o mar devolve;
Pela Lei, há de haver o respeito; sem ele nem misericórdia existirá.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Vírgula



Desabafos abafados em meu peito baforam
Tristeza e compadecimento, lições e pressões
Murmúrios das impressões
Sensações das ações entre imposições Tudo está lá fora! Eles já foram.

Meu peito lamenta, meus olhos me revelam
Meus pensamentos se interpoem
e se confundem
Minha alma ora de joelhos e implora-me Fé!
Minha mente cansada e confusa e temerosa
chora e quer até dar no pé
Hoje os dela, amanhã os meus, eu.
Sofrimentos confusos interpostos e postos até mesmo impostos
Não houve fé.
Tenho que ter mais fé!
Pelo certo, pelo sábio, pelo humilde se deve caminhar
Tenho que ter mais fé!
Pelo amor, para a luz e pela vida
Tenho que ter mais fé!
Meu, eu?
Tenho que ter mais fé!
Não há posses. Não me pertenço!
Tenho que ter mais fé!
Livre arbítrio? Que sacanagem!
Tenho que ter mais fé!
Só sei que sei que nada sei.
Interpretei daquilo que quase cansei
E daquilo que superar tentei
Tentei e tento tanta tentação tentar não dar mais atenção
nas vírgulas que só eu sei.

Reticências e ponto ou ponto e reticências?


Seus prazos térreos se esvaia
Aos casos sérios já se despedia

Como soberana que viveu,
Como soberana morreu.


Como sua Louça que despedida não recebeu
Até uma moça compadecida se percebeu.

Assim se auto-inscreveu:

À vida que podia ter sido e que não foi,
Ao recomeço que não chegou,
Ao Amor que se apagou,
À loucura que derrocou
O que há muito já oco e louco se tornou
Partiu. Partiu e partiu até o que com custo e vaidade se pariu se perdeu em vário desvario.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Aguardar






Para breve novos contos!

Três estão prontos, porém em concurso.

Passagens

Kandinsky






Quantas vidas vivi?
Vivi somente nesta,
Quebrei tanto a testa
Tudo passou e nem vi

Com vidas como que em pasta
Toda Ela aqui está armazenada
De nada esqueci e nem mais vi
Arrolada e desatada em ata
Toda Ela é passada, trespassada

De tão entrameada, por cedo
Ter esquecido o que era medo,
Precocemente foi entrançada,
Às vezes até mesmo enganada

domingo, agosto 02, 2009

Alienação


É incrível como a exploração do erotismo recebe a audiência do público brasileiro. É domingo, dia da família, todos reunidos à sala, as crianças, os homens, todo o povo reunido em frente à TV na hora do almoço, horário em que se deveria respeitar as senhoras, as crianças e aqueles que duramente investiram em suas vidas intelectuais! E lá todos estão sentados para se divertir com a exploração do erotismo, com os closes nas nádegas e seios das modelos; com a ridicularização dos esteriótipos da sociedade, os travestis e seus desejos, os pedreiros sedentos de mulheres gostosas... Enfim, é o tempo das explorações! E a exploração emocional? Pessoas pobres recebendo as caridosas ajudas marketeiras dos programas de TV têm expostas suas intimidades, problemas de família, choram, lamuriam-se... Com os sentimentos, também há a exploração e sua ridicularização.
Eis o circo de Roma! A Lacraia não morreu! Enquanto o povo se diverte com as Lacraias e Ellens, sua mente se aliena e enferruja; depois sua mente não funciona diante dos problemas da sociedade, das escolhas dos profissionais para os cargos públicos, da construção das críticas ao sistema de saúde, de seus problemas particulares que envolvem a educação dos filhos...
Qual será o resultado depois de alguns anos na vida de uma criança que aos cinco anos começa a ser exposta aos programas de domingo? Será que ela será capaz de construir valores e ter raciocínio lógico e intelectual? Terá ela condições de apreciar uma obra de arte? Será que ela será capaz de almejar algo melhor para sua vida material, espiritual depois de anos acompanhando o pai e a mãe nas diversões cretinas da exploração e ridicularização do ser humano?
Hoje resolvi pensar a respeito, afinal, casada e com uma enteada, estou sofrendo a violência dominical! Depois de tantos domingos lendo poesias, lendo as críticas literárias, explorando as teorias lingüísticas, assistindo a filmes clássicos, agora estou aqui, quase regurgitando o almoço de domingo ingerido em frente à programação de maior audiência.
Preciso pra já de um emprego! Preciso receber um salário que me seja suficiente para tentar purificar a mente da minha família com teatro, cinema, exposições e contato com gente culta. Não posso permitir minha família sofrer a violência dominical e muito menos permitir-me juntar-se a eles!
Observação: Caso eu não consiga purificar minha família, caso eu não desista dela, e, mesmo assim, não me juntar a eles, posso comunicar em alguns anos o resultado da garotinha de cinco anos.

sábado, junho 20, 2009

Ai que saudade!




Saudades, umas saudades assim...
Saudades do que já vivi outrora,
Eram tempos que maldade era trova
E bonança era sempre o agora!
Era uma outrora de tempos distantes,
Tão distantes que já nem os detenho
Nem mesmo em seus desenhos.

Saudades, umas saudades assim...
De tempos que virão, do sonhados tempos
De tempos mal plantados, mal planetados.

Uma saudade me bate agora...
Incompreendida saudade, sentida saudade!
Por piedade do deixar de me ter,
Por inconformidade do me deter.
Da vida, guardo apenas uma maldade,
Por as esperanças ficarem em piedade...

Agora, calada, saio dessa vida de cilada,
Quase disfarçada, meio ladeada, enlodeada
Para não sentir mais saudade, piedade,
Para não lhe ter maldade.

quarta-feira, junho 17, 2009

Desistências

Iraida Icaza

Há, ainda, os livros empratelados...
As alianças não são mais douradas ou prateadas,
Como nos tempos da minha mãe.
São, hoje, de papéis entraçados, estraçalhados.

Não há roupas, não há jóias nem residências e autos.
Há apenas resistências emprateladas.
Mas que hoje são também entraçadas.
Resquícios de entranças e transas.

Os sonhos se rasgaram como o véu da noiva desistente,
O nojo veio como o da rica viúva,
O choro passou como o da criança mimada,
A tristeza se foi como o sono em noite quente.
Sente que o desistente é sempre o mais feliz.

____________________________

Rompimentos?
São tantos.
Pode ser mesmo
Só o fim dos tempos!

____________________________

Tentativas.
Desistências?
Persistências.
Pendências.


Inocências


Inocências.
Nascem com a ciência da indecência.
Antes fossem Temências, as da ciência do temor.
Àquelas, por tanto amor, Não a si, mas ao clamor, e
Sem senso de decência, despem sempre o seu coração
E, por isso, caem sempre nas garras de qualquer garanhão.
___________________
Procuro independência,
Mas sempre caio em dependência.
Será por tanta inocência?
De repente por indecência.

Prece para Iemanjá








Omiodô, Omio doce mãe
Vou pedindo benção, amor e paz
Para aquele rapaz
Que tanto tem dor
Omiodô, Omio doce mãe
Vou pedindo luz e prosperidade
Para esta moça
Que a idade já pediu
Omiodô, Omio doce mãe
Que o seu mar
Me banhe em paz
Que a sua lua
Me guie na fraternidade sua
Que a sua estrela
Me brilhe no peito
Que a sua força
Me apanhe em coragem
Omiodô, Omio doce mãe
Que a coragem, que o brilho, que a paz e a prosperidade
Atinjam estes humanos que tantos desalinhos passam.
Omiodô, Omio doce mãe
Omiodô, Omio doce mãe



Omiodô, Omio doce mãe
Vou agradecer a paz e a luz
Que o mar e a lua
Trás a mim e a eles
Omiodô, Omio doce mãe
Vamos agradecer
A coragem que a mãe nos deu
Omiodô, Omio doce mãe
Vamos nos unir para pedir
Muito ter o que agradecer
Omiodô, Omio doce mãe
Que o som das suas ondas
Nos acalmem todas as noites
Que o brilho das estrelas e da lua sua
Possam nos iluminar pelas noites de solidão
De sofreguidão
Omiodô, Omio doce mãe
Que o seu doce nos adoce
O coração.
Omiodô, Omio doce mãe


O ciumento



- Já disse que vou sim!
-Quer ir, vai! Mas se você for assaltada...
- Quem é que diz que vou ser assaltada?
-Você é muito ingênua, não percebe as coisas...
-Claro que percebo.
-Não percebeu nem que o atendente era baitola!
-Mas percebi que eu fui bem atendida.
-Um cara pode vir a qualquer momento lhe falar um monte de coisas e te enrolar...
- Até parece que me enrolam fácil assim...
-Te enrolam fácil aqui, você que ainda não foi enrolada porque não deixei. Os homens daqui se encostam nas mulheres com papinho pra depois assaltá-las, estuprá-las...
-Você pensa que vim da roça, é?
-Não tô falando isso...
-E tá dizendo o quê?
-E você pode se perder...
-Se eu me perder, procuro a polícia.
-Aqui são tudo um bando de safado! E aquele que te ver perguntando informação, vai ver que você não é daqui, aí vai querer te enrolar.
- Você é que tem medo!
-Eu não tenho medo, sou homem. E com homem é diferente.
-Até pode ser, mas eu não tenho medo nenhum, sei me virar.
-...
-Tu é que tem medo de eu ir e não voltar mais.
-Não tenho medo nem disso.
-Ah é? Então amanhã eu vou sair sozinha.
-Você não vai nem conseguir pegar o ônibus!
-Você tá de brincadeira comigo!
-Não tô brincando, é sério, aqui é diferente.
-Aqui deve ser o pior lugar do mundo!
-Já disse, vou contigo aonde você quiser.
-Mas eu preciso sair sozinha, senão não aprendo a andar.
-Daí você vai ver, vai ser enrolada, assaltada, vai se perder...
-Daí quem sabe eu vou e nem volto, né? Vai que me emociono e entro na rodoviária e fujo, né?

Cuspo este veneno

Uma homenagem continuada a um 100!




Educação ou avacalhação?
Mas que gestão!
Mais parece falta de prece
Pois todos rumam ao caixão
Ninguém terá o perdão
Pois isso lá carece não.

É presente de cupido o destampar do ouvido:

Esse novo amor apagará toda a sua dor e lhe devolverá todo o vigor.

É cautela do presente:

Todo o amor desaparecer vai
se verdadeiro que aceitar em sua alma não florescer até o amanhecer.



7 luas
cruas
e duras
você tem para verificar:

Prefere amor real ou prefere amor surreal?

Se real, amor você terá.

Se surreal, você jamais o terá, e ainda o real perderá.

Ardência


leve e puro são teus lábios
desejo os como nunca
sábios desejos vis e negros
como tua ardente pele
amizade és o que tens por mim,
mas por ti tenho paixões


Amizade demais estraga as paixões
paixões que em sonhos matutinos vivem
que em reais noites sobrevivem
Não tenho mais idade de platonismos
passei por ismos sem idade ter
hoje desejo-te com força, mas sem dor
seja o que for, quando for, amarei sem
pudor.

Por quê?
Quem mente passa a frente
E quem sente passa rente?

Indiferença



quase uma gestação
e um ar de indignação
e falta de reação...
cadê a paixão?
a espera gerou obturação?
ou tapou a visão?
por que a indiferença?
mas foi tanta querência
por pouca experiência
ou muita demência
talvez carência
da sua ciência
tenha me feito ganhar experiência
sofrimento tentar causar?
nada. Apenas ficar na indiferença
por seu merecimento
lhe dar esse aborrecimento

por tanto tempo e toda a espera
zela a alma a espera de carta tua
nua era minha caixa de impressão tua

Ele canta Ela canta
Um oi e um e daí?
Ele se encanta com outra
Ela decanta
talvez desencanta
e com outro se encontra.

Por seu merecimento
um aborrecimento,
quiçá sua ausência,
uma indiferença,
depois de tantas querências,
mostrou saudade esquecida
talvez por sua demência
ou minha ciência
talvez experiência
pareci perdida
ou desentendida

entendi
seu jogo
frieza
indiferença
sem busca
uma surpresa
indiferença

Solidão



Solidão
É um senão que não se entende
é o que se pretende
para ver tudo o que se tende

O amor que me prometeu


Folhas verdes voam ao vento inebriante da minha alma
Águas límpidas sacolejam-me o corpo lavando-me o peito
Brisa suave e leve carrega-me rumo ao porto seu
para ter o amor que me prometeu.

Revolução


Revoluções
Me trazem evoluções.
Necessito de inovações!
Limpeza no coração,
Paz nessa encarnação.

Partidas, idas, vindas
Encontros e desencontros
Portas que se fecham
Janelas que se abrem
Portões que se escancaram

Adeus às minguas
Good bye aos tontos
Todos já vão
Eu já vou.

Metamorfosear.
Fazer revolução!
Ir atrás da evolução.
Necessito limpar o coração,
Encaminhar esta encarnação,
Vou fazer revolução.
Vou versejar!

Ter fé
E não dar no pé
pois amor de verdade
não tem piedade
mas exige serenidade


tornar Ser com a idade
passar a viver a verdade

Ter fé
sem pé
não vale nem um café,
muito menos um cafuné.

Espiritualidade

Deve-se viver com serenidade
exercitando a temperança
é não ter piedade, apenas caridade
Evoluí na mudança!
Acompanhar as vicissitudes
Destruindo preconceitos
Trilhai a estrada com atividade!
Polindo virtudes, podando defeitos
Sem fraqueza ou maldade
É ter a certeza de uma nova humanidade


Suicida quase sempre


suicida quase sempre
nessa pressa de semestre sempre numa prece
Não me aprece, pois não me apetece
tece o texto quase numa peste
sono, gordura, fumo
o supra-sumo do suicida madrugal
de prece em prece um fumo tece a peste semestral

Véu



pego um alvo véu
passeio com ele sobre mim
sob a lua cheia embrisada
ele gira a minha volta
da lua gira e energia tira
tem mais vida e mais luz
voa sobre mim
ilumina-me assim alimenta-me
voa comigo, comigo voa
a mim inebria a mente
alva fica a alma leve minha

quarta-feira, maio 06, 2009

Omio!



Barco que minhas lamentações para o mar levou
Na arrebentação quase virou,
E na baía encalhou.
Pescador pra alto mar levou, e a Mãe barco entregou.
No oitavo dia, barco ancorou.
No décimo sexto, barco me levou para nele navegar,
E, assim, me resgatar.
Faça o que fizer, faça com fé. Esteja onde estiver e com que for, dê as maiores forças e confiança àquilo que acredita! Omiodô, minha Mãe Iemanjá!

quinta-feira, abril 09, 2009

O dia em que Marília disse o sim


Casei! Finalmente Marília casou. Não é bem assim... Não tive sacerdote, festa ou dote, mas casei, juntei ou ainda amasiei, como dizem por aqui. Foi tudo bem ligeiro, nem mesmo esperava que aquele que conheci num sábado de inverno fosse me conquistar no verão a ponto de eu dizer o SIM, pior, largar o mar da ilha da magia e vir para as matas de Viamão. Engraçado, cômico, assustador, lamentado, etc., não importa, o que importa é que casei.

Às vezes, o que é melhor para nós está além da capacidade de nossos próprios anseios, mais ainda das vidências nossas de cada dia. Uma vez lá atrás, há um ano, eu vi em meu baralho que me casaria, vi também que seria em um ano, e mais, com um filho do Grande Pai; cá para nós, quem melhor para casar com a filha da Grande Mãe? Mas quem é que vai acreditar? Há poucos meses, vi que eu me mudaria, mas pensei que seria mais uma daquelas mudanças de bairro... Que nada, além de me casar, ainda me mudei para outro estado! E nem avisei ninguém! Loucura ou não, aconteceu comigo sem o menor condicionamento de visões, previsões, afinal, nem mesmo me lembrava do que tinha previsto. Depois que tudo estava arranjado, a mudança encaminhada, ou encaminhonada, me lembrei das previsões...

Se hoje vou fazer alguma previsão para este casamento, seja lá o nome que queiram dar, não farei. Deixarei o tempo mostrar as conseqüências, afinal, nem preço e nem medalha há no final, tudo é mera consequência e nada é de todo ruim e nem de todo bom. Os fatos da vida simplesmente acontecem, mas certamente somos nós que damos a eles a luz ou a escuridão.

Amizade é tudo que é de mais importante em um relacionamento, depois vem a paixão, a admiração; o amor é a mera soma dos sentimentos multiplicados pelas atitudes do dia-a-dia (ceder, compreender, esforçar-se [não para agradar, mas para prosperar], etc.). É isso o que aprendi assistindo os relacionamentos dos parentes, dos amigos e com passado: sem amizade, sem longas horas de conversas divertidas e instrutivas nada mais poderá haver.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

No Teatro da Vida ou da Morte

[Sinfonia da Dúvida, Acrílico s. papel, por MCValdágua]
Enquanto tudo é possível, não há nada que possa ser previsto ou dito. Dúvida? A Dúvida seria escrúpulo, ou não? Talvez medo? Ou insegurança? O que é a Dúvida? Pior que a dúvida, ou o que a piora, antes pelo contrário, é a ansiedade pela Decisão. Diz Aristóteles que a Dúvida é o princípio da Sabedoria, será mesmo sábio aquele que duvida? E até mesmo aquele que duvida de si próprio e de sua fé? Ou será este um cretino? Quais os caminhos que a Dúvida nos leva? Serão perigosos os caminhos? Terão um final? Será feliz esse final? Como será? A Dúvida, me parece, exige precaução. Se na Dúvida digo sim, mas não tenho certeza do sim, apenas tenho a ansiedade pela Decisão? E se digo não apenas pela ansiedade pela Decisão? Uma resposta errada e caminhos errados de finais imprevistos. Dúvidas nem sempre são solucionadas em sins ou em nãos, às vezes, em frases completas de sentidos, às vezes, ambíguos, onde, ou quando, você põe sua vida em xeque ou num cheque, põe toda sua estrutura à prova ou à perda, sua vida ao céu, ao léu ou ao inferno ou em todos os lugares ao mesmo tempo... Isso é mesmo possível? Onde está minha vida neste momento? Em que lugar será que a Dúvida, melhor, as Dúvidas, me colocam? Qual o preço de tantas Dúvidas? Viver doze horas ao céu, outras doze ao léu ou ao inferno, ou algo assim talvez seja um preço razoavelmente caro, um preço que não posso mais pagar, pois a cada dia seu valor aumenta e meu coração se lamenta. De quem é a culpa por tantas Dúvidas? Minhas, tuas? Terá alguém culpado nisso tudo? É natural? Talvez não? Sou Eu? É a vida ou a morte? E se eu persistir? Será sábio? Será idiota? Louco?

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Praça


aos 05/01/2009
praça
violão
cerveja

eita que achou graça
e nasceu paixão
de certeza!

Era


ao longe e ao perto que
para tudo está desperto
liras&lilas

ele apressa, ela desconversa
ela tem pressa desconexa
que ela enlouqueça
e perca a cabeça
há compressa para a pressa
mas ela detesta
com o quê ele a testa
e ela se desembesta
mas também se apressa
e o tempo nunca cessa
quanto mais há pressa
mais o tempo está nessa
de que nunca será nesta
a sua festa

O amor é azulzinho




a C.M.D.

mentes a viajar
entre braços como nunca
e em passos na sua nuca
bocas a se beijar
meus dedos vão te acariciar
e contra os seios te apertar
minha boca a te afagar
minhas coxas te fisgar
minhas unhas te arranhar
entre amassos e bocas
até que as mentes fiquem ocas
e entre laços quentes
palavras poucas em vozes roucas
entre braços como nunca
e em passos na sua nuca
bocas a se beijar
meus olhos a se cerrar
teu peito acalmar
mentes a viajar

domingo, janeiro 11, 2009

Através do Espelho

Quem é você?





Olho-te nos olhos todos os dias
E não te reconheço
Ouço-te diariamente e enlouqueço
Questiono-te diariamente,
A procura de uma explicação, e
De ti nenhuma vil resposta ao menos
Olho-te nos olhos todos os dias
E não te reconheço
Atos insanos te vejo cometer diariamente
Pensamentos medíocres ouço de ti noturnamente
De ti nenhuma vil explicação ao menos
Olho-te nos olhos diariamente
Olho-te e não te reconheço
Olho-te e não me reconheço
Olho-me e não te reconheço
Não me reconheço nas janelas
Não te reconheço nas janelas
Não reconheço meus sentimentos
Não reconheço teus sentimentos
Não reconheço meu sorriso
Não reconheço teu sorriso
Não reconheço minhas lágrimas
Não reconheço tuas lágrimas





quarta-feira, janeiro 07, 2009

Cidade...Cidadela... Os pássaros que lá gorjeiam não gorjeiam como cá


Pássaros ou uma Mulher?

Uma Cidadela onde ser Cinderela é Show
Uma Cidade onde ser Primogênita é trabalhoso.


O mar tem em várias outras cidades. Mas, eu escolhi o grandioso e pequeno mar da Tapera – Floripa-SC. Um mar fechado com sua orla enfeitada pelos barracões de pescadores e pelos feitiços dos bruxos da vila. Esse mar se esconde dos turistas, ou será que os turistas dele se escondem? É melhor deixar assim. Não sei se eu escolhi o mar da Tapera ou se ele me escolheu, mas o fato é que em São Paulo não fico e pronto e acabou! São Paulo não me quer, eu não a quero; a Tapera é muito mais divertida. As aves que cá gorjeiam não gorjeiam como lá; eh, estou em São Paulo vendo o seu céu cinza, sentindo o seu vento poluído e pesado, ouvindo as estressadas buzinas dos carros e o rancoroso motor dos ônibus, caminhões e trens. Não que na Tapera não tenhamos ônibus e caminhões, isso temos sim, mas ao invés de trem, temos barcos e cavalos.
Temos uma praça de tamanho significativo por perto. Na Tapera essa praça seria o maior sucesso! Árvores e balanços para realizar de dia os sonhos de crianças, e, de noite, feitiços. Mas aqui... Sua única serventia é abrigar os desabrigados dos bares e oferecer-lhes um banco gelado de frente ao cruzeiro para que possam se refestelar até o amanhecer ao som de suas roucas vozes, quando muito, acompanhadas do som do violão e da sirene da polícia. Mas há algo bom: roucas vozes pressupõe companhia; refestelar-se pressupõe em alto-estilo. Não há mal que não me traga nenhum bem.
É janeiro, verão, segundo a tradição. Mas vivemos dias tão cinzas e gelados, sem humor ou graça, sem desejos despertos e tampouco realizados... Parece inverno, e dos pesados, com direito aos casacos de lã pesada. Verão hipocondríaco. É o verão mais hipocondríaco que vivo em São Paulo. Se eu estivesse na minha Tapera... Mas aqui já tomei de banhos de descarrego a calmantes, incluindo os pós-copos, doses duplas. Lá, o que eu tomo? Vá se lá hoje um banho de descarrego, daqui uma semana outro... E assim vai. Lá nem tenho problemas pós-copos, não que lá não tenha copos, mas não tem mesmo são problemas... Calmantes? Só em caso extremo de vida ou morte. Lembro-me de ter tomado apenas um, numa noite que não pude ir pra casa... Aqui, em poucos dias, já quase me internei numa clínica para nervosos. É , não dá!
Talvez eu fique assim nervosa por ficar entediada. Ficar entediada em São Paulo, a Sampa? É... São Paulo não me quer mesmo.
Teve um dia que foi exclusivamente maravilhoso. Foi o dia em que passei com minha família no Parque do Ibirapuera. Eu e minha irmã alugamos bicicletas (R$5 por hora, um assalto!) e andamos por todo o parque sob o cinza céu, mas até que os seus verdes se destacavam bem nesse clima. O parque não estava cheio. Tinha pessoas suficientes para assegurar algumas colisões, afinal é São Paulo e ninguém respeita as regras de trânsito mesmo, nem mesmo as mais banais que viabilizam o bom e seguro tráfego de bicicletas pelas ciclovia do parque. O pior e incrível, isso é fdd para mim, eu andava sempre à frente da minha irmã caçula, depois que eu passava, ela passava e lá começava a sessão taradice. Mas também, ela com seus belos 15 anos andando de bicicleta vestida em pedaço de pano... Quero o quê? Ela já não é mais a minha irmãzinha, é apenas a minha irmã.
Não sei se isso piora a situação ou não, mas aquela que foi minha irmãzinha e que hoje é apenas a minha irmã tem um namorado quatro anos mais velho do que ela. Ele é uma graça de menino, tem uma mãe que é também a graciosidade em pessoa, mas só de pensar a minha menininha nos braços daquele cabra... Tenho vontade de sumir! Entendo então a situação que minha mãe, meu pai, meus tios passaram quando era eu que me enrolava nos braços dos cabras aos 15 anos... Hoje, mesmo cheia de ciúmes, apóio a relação deles, formam um casal bonito e o cabra poderá ser um cunhado bacana para almoçar aos domingos e, depois, fazer sessão jogos de tabuleiro, o que eu e minha irmaz... irmã adoramos.
Voltando à proposta... Afinal, é preciso desabafar. Registrar aqui, onde qualquer terráqueo que, ao menos, leia o português brasileiro possa ler e ver. É uma forma, talvez de recolher testemunhas para o dia em que São Pedro me indagar sobre minhas psicoses.
As chaves daqui trancam tudo, as grades nas janelas interrompem minha tentativa de visão para uma quase paisagem admirável. Ela é longínqua... Quase inatingível. Talvez, só exista na nossa imaginação, na imaginação de quem daqui, louco e bemol, tenta se suavizar. Fugir? Impossível. Aqui no Brasil não tem o ônibus que resgata bruxos em apuros. Esperar e esperar... Logo-logo fujo de 1001 ou de Gol; mas como o prefeito que tudo quebrou quando a eleição perdeu não me pagou... Talvez eu vá de caronas mesmo... Um dia devo retornar à casa Sagrada e também à Casa Santificada.

terça-feira, janeiro 06, 2009

PILEQUE


pique

Para um pileque

Para bancar o moleque

E dar no

Sem nem a conta pagar

Pois tonta do pileque

É querer se defenestrar

E nesse mesmo pique

Achei de onça virar

E nas estradas deambular

Subscrevendo


Sabotadas Notas Desabotoadas

Somos os mesmos até depois do depois. O que somos não se apaga, não paga, apenas em nosso ser vaga. O que somos não desaparece, apenas se resguarda, para poder aparecer na melhor das oportunidades, na melhor das idades e das maldades.


1000 anos passarão e seremos sempre os extremos que nos dividem. O médico e o louco, o chefe e o empregado, a mãe e o pai, o padre e o fiel, o cidadão de lei e o corrupto, o avesso e o direito.


Pelo avesso somos isso mesmo. O que há de mais louco e doentio em nossos tempos; somos condenados aos extrapolamentos.


Pelo direito somos aquilo também. O hipócrita hipocondríaco crédulo e temente, trabalhador e pagador de impostos e contas.